segunda-feira, 8 de abril de 2013

Veja só em que Época estamos …

Este fim de semana serviu para ligar novamente as duas revistas de maior tiragem do país. Não é de hoje que Veja e Época mostram igualdade em capas (ou seria falta de criatividade?). Lembro-me de exemplos recentes, como o novo papa, ou mesmo da morte do presidente venezuelano Hugo Chávez. Assuntos como esse parecem obrigatórios nas capas de ambas. Mas foi-se a época (sem trocadilhos) em que ‘ser capa da Veja’ era um elogio. A última capa de ambas (só pra variar), repercutiu o caso da cantora Daniela Mercury.

Não é esse jovem blogueiro que irá levantar essa bandeira, pobre de mim, há muitas outras críticas as revistas, as mais incisivas são contra a publicação da Abril. Bons exemplos são o do padre Fábio de Melo, do humorista Danilo Gentili, do jornalista Luciano Martins, há espaço para críticos amadores e vídeos bem-humorados, citando reportagens da televisão e trechos de filmes parodiados. Há relatos de pessoas comemorando o cancelamento da assinatura da revista e até a ‘enciclopédia de todos nós’ tem uma página falando sobre 'as controvérsias' da revista.

A revista Veja, da editora Abril, tem a circulação de 1,2 milhão de exemplares por semana com, segundo o IVC, mais de 920 mil assinantes. A Época, das organizações Globo, tem circulação próxima a 500 mil exemplares. O público alcançado pelas semanais, entretanto, é bem maior. O que tem na sala de espera do consultório médicos? As revistas atingem um público enorme e sabem disso. Poderiam, oficialmente, se juntar e formar uma revista só, que tal? São quase as mesmas capas, quase as mesmas opiniões, quase as mesmas teorias, quase jornalismo.

Mesmo com os número acima, não é de hoje que a Veja tem perdido público e credibilidade. Se perdeu é porque um dia teve. A publicação do último fim de semana estampou a cantora Daniela Mercury e sua esposa. O caso teve grande repercussão nas redes sociais e ganhou notoriedade ainda maior com o caso do deputado e pastor (pode isso, Arnaldo?) Marco Feliciano, que tem sofrido pressão da classe artística. Bem, vamos a vias de fato. Qual o problema na capa da ‘Époja’? Não li as reportagens (nem perderia tempo com isso), ambas as fotos (das capas) tem poses e tratamento arcaico e requentado que evidencia ou preguiça extrema ou falta de criatividade.

Não há problema em abordar essa questão. A pergunta é: esse é o assunto do momento? Quando se trata da imprensa brasileira a pergunta é diferente: o assunto é realmente importante ou está sendo abordado por questões de ‘venda’? Imaginemos uma capa falando da ameaça da inflação no país. Venderia igual a capa da Daniela? Ou mais, uma capa falando sobre o perigo evidente de uma nova guerra de âmbito mundial (nada importante isso, né?). Venderia igual? O problema no jornalismo acontece quando vender está acima de informar, aí temos um – grave – problema. Não é de hoje de ‘Vépoca’ faz isso. Não precisa ir muito longe. Na semana em que o escritor Jorge Saramago, primeiro e único, até hoje, prêmio Nobel de Literatura que escreveu em português, a publicação da (1º de) Abril, estampou na capa as repercussões de #calabocaGalvão, uma campanha, diga-se de passagem imbecil, no twitter. Quanta pequenez de espírito e falta de comprometimento em ser boa mídia.

Percebeu que até agora não falamos exatamente da Época? Sabe por quê? Simples, a publicação dos Marinho sente-se confortável em ser uma ‘2ª Veja’ (ânsia). E quem diz isso não sou eu, é o respeitado jornalista Alberto Dines, e eu compactuo com a ideia. E – falando em Época – até gosto de determinados colunistas como Ivan Martins e Eliane Brum, por exemplo. Pena que não posso dizer o mesmo dos ‘radares’ da Veja.

A grande discussão é política: qual é o papel da imprensa? A imprensa tem papel de denúncia? Também, desde que ela não ultrapasse os limites, e quais são esses limites? A parcialidade, assim como a justiça. Ou seja, a imprensa tem como dever a denúncia, a apuração, entretanto, esse mecanismo só deve ser usado quando há imparcialidade, denunciar a todos, sem partidarismo. O veículo tem o direito de ter opiniões e/ou posições políticas, mas aí a pautar suas denúncias e reportagens em cima disso, é outra – e típica – história. Discutir Daniela Mercury não é errado, só está fora dos assuntos relevantes para a população, ou pelo menos para uma capa, que subentende-se como importante.

Uma guerra, a alta nos preços, problemas sociais aos quais continuaremos a nos referir nas próximas décadas, por falta de ação e atenção de todos, deveriam ter maior atenção da publicação semanal mais lida no Brasil, mas não tem. Aí está a questão: Vende mais porque é bom (bom?) ou é bom porque vende mais (bom?), no caso, está cômodo, é cômodo para a editoria continuar no raso, sem discussões válidas no jornalismo para melhorar a sociedade. Vende mais porque é mais fácil, é mais ‘politicamente correto’, mesmo que seja citado numa publicação em um veículo com ‘chefes’ que tem histórico racista e colunista com opiniões claramente homofóbicas. É muito fácil continuar assim, a Veja, assim como a Época, não desejam mudar, ou pelo menos, não dão a entender que querem, e o público? Será que quer? Ou será que está tudo certo em abordar temas superficiais ao invés dos realmente importantes?

Como alternativas paralelas surgem revistas como a Piauí e Carta Capital, por exemplo. É ilusório procurar uma imprensa realmente livre de ‘rabos presos’, mas isso não pode ser tão grave como se evidencia nas mais lidas do Brasil. Os leitores podem e devem ter voz ativa sobre o que ler, essa é a maior democracia, portanto, só lê porcaria quem quer.

No geral, essa é a imprensa brasileira, tentando bancar a descolada. Se é tão descolada não deveria soar tal notícia de Mercury com tanta surpresa e no sentido: ‘para vender mais’, ‘para ter mais cliques’. Afinal, casamento de famosos que colocam fotos em redes sociais não é lá algo tão anormal. Não somos tão evoluídos? Porque repercutimos dessa forma? Não é normal? Bem se vê para onde caminhamos com uma imprensa, em suma, tendenciosa e pessoas tentando ‘parecer legais’. Triste, mas real.

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